quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Novo Robin Wood

Eis como surge o Robin Madeira, a dar sopa aos pobrezinhos.

Sem a coragem e o sentido de honra do famoso herói, sem gentil porte que o enobreça, o Robin Madeira nunca tirou aos ricos para dar aos pobres. Instalou-se no palácio onde se banqueteia com os da sua igualha e com aqueles que se curvam para beijar-lhe os anafados sapatos. No seu longo reinado de trinta anos, Robin Madeira fez crescer o número de pobres, para que não se perdesse a tradição familiar de lhes oferecer uma sopinha diária, como benfeitor supremo.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Ficha 3


3

Rui pegou no recibo e dirigiu-se ao edifício da Assembleia para receber o pagamento. Já tinha percebido quase tudo. O senhor Sousa, antes de sair, abriu-se e contou como elas se faziam. O método era profusamente utilizado em África e consistia em oferecer dez por cento do valor de cada máquina ao responsável pela compra. E se esta empresa não fizesse, faria outra.
- Mas se os responsáveis não escolhem pela qualidade e preço, como se justificam?
- Quando lhes pedem explicações, coisa rara, por acaso, encontram sempre uma fórmula: uma qualquer característica da marca ou modelo adapta-se mais eficazmente ao pretendido…
- E nos restantes materiais, nos consumíveis, por exemplo?
- Só em casos especiais se oferece um prémio qualquer.
O senhor Sousa saiu para uma empresa maior, mas deixou toda a sua sabedoria ao senhor Castro. Este, porém, explicava logo tudo ao Rui. Percebia-se que não estava de acordo com todas as estratégias.
Olhou o recibo: quatrocentos e tal contos. Era uma enormidade de papel e tinta que aquela assembleia consumia, caramba.
A espera valeu a pena, pois o cheque já estava passado, aliás Rui nunca se aborrecia nas repartições: quanto mais tempo ali, menos a entortar a coluna numa cadeira, a mexer em papéis. Comprava um jornal desportivo e passava o tempo entretido numa fila qualquer.
- Eis o cheque, senhor Castro, bela verba. Aquela gente gasta material que se farta…
O senhor Castro sorriu, abriu a porta que dava para o espaço contíguo, onde geralmente se encontrava o patrão e, vendo o espaço vazio, esclareceu:
- Aquele dinheiro é limpinho, é fifty-fifty; metade para o Ricardo Mendes, metade para o Sivestre.
- E o material?
- Qual material, ó homem? Não saiu uma resma de papel do armazém.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Ficha 2

2

O Gerardo viera do Continente, directamente da grande empresa. Era um bom técnico de máquinas e tornou-se absolutamente necessário, porque o senhor Silvestre se dedicara quase em absoluto às vendas e aos negócios, sem mãos a medir já para as máquinas que ia vendendo em tudo o que era instalação do novo governo.
A autonomia implantara-se, com assembleia parlamentar e tudo, coisa fina, de política séria, e uma colecção de deputados a viverem a experiência de se sentarem à esquerda ou à direita como viam nos filmes ou leram em cursos acelerados de política.
- Gerardo, o duplicador do Partido está a jogar tinta por quanto é lado. O presidente está furioso. Deixe tudo o que está a fazer e corra lá.
- Mas qual é o modelo? Tenho de preparar as peças.
- Vamos, rápido, pergunta aí ao Rui.
O Rui pegou no ficheiro. N, O, P… procurou Partido e nada, mexeu com os dedos na parte superior das fichas de cartão, antes e depois do P… e nada.
- Então, Rui, olha que o Silvestre se chateia se não arranco já.
- Espera mais um pouco, que não encontro a ficha desse cliente. No P, não há nada.
- Isso, procura melhor, eu entretanto vou à rua fumar e já volto.
Rui procurou sobre a secretária, vasculhando os papéis à direita e à esquerda, documentos que ficavam à espera de serem tratados ou do arquivamento. Estava quase a entrar em desespero e decidiu procurar letra a letra, ficha a ficha, aquela poderia estar fora da mãe. Nova desilusão. Aborrecia-o ter que perguntar ao senhor Silvestre se ainda se recordava do modelo que tinha vendido para o Partido, até porque ele haveria de perguntar pela ficha que tinha voado dali para fora. Que chatice…
O senhor Sousa, o chefe de escritório, deu-se conta de desespero:
- Que se passa, Rui? Parece uma mosca aí à volta do prato, que procura?
- A ficha do Partido. Vendemos um duplicador para lá e não aparece a ficha.
- Vai aparecer, o Gerardo que vá lá, tenha paciência e leve as peças de três ou quatro modelos. Se for necessário voltar lá, que volte.
Palavra de chefe era descanso. Com ele, nunca o patrão levantava a voz; tinham os seus segredos.
Quando o Gerardo regressou, dirigiu-se de imediato ao colega:
- Não procures mais, Rui, vai à ficha da Assembleia.
- Explica-me.
- É esse o duplicador.
Rui continuava a não perceber:
- Mas foste à Assembleia?
- Não; ao Partido.

domingo, 5 de agosto de 2007

Ficha 1

1

- Posso então ver os fotocopiadores?
O presidente da câmara de uma freguesia do Norte da Ilha, ele próprio se encarregava da compra do equipamento.
- Talvez não tenha confiança nos funcionários – alvitrou Rui, o empregado de escritório mais jovem da empresa, aliás só havia dois: o senhor Sousa, e o Rui. Aquele viera de Moçambique, na leva dos retornados. Era o braço direito, e o esquerdo também, do senhor Silvestre, que era o patrão. Este não passava de um técnico-vendedor, ou vice-versa, não interessa ao caso, a quem uma grande empresa, analisando as condições de um mercado regional que prometia, com a abertura de escolas e instalação de órgão de governo da ilha, ofereceu dez por cento de quota para a instalação de uma empresa neste cantinho. O senhor Silvestre encarregava-se das vendas, saindo logo pela manhã com a pasta negra inchada de catálogos de fotocopiadores, máquinas de offset e duplicadores. Havia para todos os gostos e preços. Fotocopiadores baratinhos a líquido e outros, o dobro do preço a toner, duplicadores pequenos próprios para copiar comunicados de paróquias, partidos ou movimentos políticos e outros maiores, que uma secretaria governativa não desdenharia.
O homem conhecia já as novas tecnologias, sim senhor. Questionava as possibilidades, cofiava o bigode, sorria, perguntava preços. Tornava-se evidente que o senhor Silvestre já tinha andado no Norte a distribuir catálogos e a falar da vantagem da compra naquela empresa.
- Talvez este mais pequeno e barato sirva para os vossos serviços – apostou o senhor Silvestre, levantando a tampa da máquina e mostrando o vidro, enquanto volteava a resma de papel, para que as folhas se soltassem, evitando, assim, a humilhação do fracasso. O diabo era mesmo quando as folhas prendiam no interior da máquina, no momento da venda. – É uma câmara pequena (não é?), depois se o serviço aumentar, o senhor presidente compra outra. Vem cá e nós retomamos essa. Está tudo preparado.
O presidente cofiou o bigode, sorriu e perguntou:
- Qual é o mais caro?
O senhor Silvestre sorriu gloriosamente e apontou-lhe o último modelo a toner – uma máquina japonesa grande, brilhante, sedutora.
- Vai esse mesmo – e piscou os olhos ambiciosos.
- Tratem da guia de remessa. - ordenou o patrão, enquanto saía da loja com o presidente, para discutirem negócios.
Rui olhou para o senhor Sousa, estupefacto:
- Nem perguntou se era a melhor, as características…
- Para quê? – sorriu trocista e manhoso o homem experiente – Trata é da guia de remessa. E não te esqueças de guardar a cópia do valor de intermediário na pasta. São dez por cento.

As fichas do Rui

Rui é uma personagem do meu primeiro romance, ao qual darei, em princípio, o título de Mónica. A acção passa-se na Madeira, nos anos que se seguiram ao 25 de Abril. Numa primeira revisão, decidi retirar algumas passagens, ou pelo menos transformá-las, expurgando alguns momentos de menor literariedade. Custa-me, porém, mandá-las para o caixote do lixo e então prefiro guardá-las nestá espécie de diário em que vou tornando este blog.
Rui não pretendia continuar ligado àquela gente. Fartara-se. Respondeu a um anúncio no Diário de Notícias local e empregou-se numa empresa que comercializava duplicadores e máquinas de fotocópia. No fundo, mantinha-se numa área próxima do trabalho anterior, embora como escriturário. Formou rapidamente uma opinião sobre as maiores motivações autonomistas. Pensou em fotocopiar algumas provas da corrupção a que assistia, mas desistiu da ideia, quando o seu chefe o apanhou em flagrante nessa tarefa. Inventou uma desculpa, mas o senhor Sousa, no dia seguinte, chegou com uma conversa sobre a confiança nas empresas, afirmando que o mundo dos negócios gera muitas ilegalidades, um mal generalizado, mas menor, já que toda a gente fazia por enganar o Estado, tonto seria quem o não fizesse. Manter os segredos na empresa seria um dever de lealdade de todos os funcionários. Então passou a escrever, ao final do dia, numa velha máquina, o que chamava o seu ficheiro, umas fichas numeradas, onde registava em tom narrativo as experiências por que passava. Luísa viu-o debruçado sobre a máquina, escrevendo a ficha 5.
- Para que é isso?
- Para não me esquecer. Está descansada, que não denunciarei os teus amigos.
- Meus amigos, quais?
- Os laranjas, ora quem haveria de ser? Esses fulanos que de dia são apoiantes do governo autonómico e à noite colocam bombas e pintam paredes de azul e amarelo, o Cristiano e os outros, esses que ganham as eleições metendo medo ao povo com o papão do comunismo, mas não dizem a verdadeira razão por que querem o poder, nem eles nem os padres que os apoiam, pedindo nas igrejas que votem no partido das setinhas apontando para o céu. Vê como colaboram no Jornal da Madeira. Sabes, desconfio que escrevem nessas folhas de beatas os mesmos que à noite gatafunham o Zarco, esse pasquim ascoroso dos flamistas.
- Rui, estás a tornar-te mais radical que o próprio Mário. Agora és esquerdista?
- Não, não quero saber de partidos, mas começo a enojar-me com toda esta hipocrisia.
Luísa passou-lhe a mão pela cabeça, acalmando-o, pegou nas folhas e leu:
(continua...)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Frases de bolso do discurso totalitário

O Rali Vinho Madeira pertence a todos os madeirenses!

O Carnaval é obra de todos os madeirenses!

As pombinhas no ar são um sinal de que todos os madeirenses desejam a paz no Mundo!

Madeirenses, acendam as luzinhas no Fim do Ano. Transformemos o nosso anfiteatro no grande postal da Madeira!

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

FUNCHAL

amo o outono nesta cidade
as pequenas casas de todas as cores
os campos de vinhas e cana de açúcar os pomares entre maio e agosto

dizes:

eis a tua cidade
a de zarco e colombo
as ruas tão inclinadas como o sol dos invernos profundos
os carros de cestos os caminhantes da encumeada.


eis-te no centro de tudo e os navios parados.


amo o outono nesta cidade com todas as viagens sem chegada.
na véspera já amara as verdes montanhas de leste
as chuvas abundantes
machico entre os seios de ana d'arfert.

depois voltei para sul e amei-te quando cantavas.

séculos antes navegadores de portugal deram-te um nome e era funchal.
depois queimaram as árvores e o mais alto incêndio era uma ilha.
escravos errantes pararam o sol e à volta serenamente e com paixão
espalharam o verde e o azul.

nunca cantaram o bailinho.

hoje
solitários e ébrios trabalham a pedra a beleza a FOME e o TURISMO.

tu
envolta nas lendas e no sonho surgiste devagar e devagar
deste-me os mais belos frutos e os mais estranhos
as pitangas os araçás os maracujás e as romãs da primeira primavera.

eras mulher e quis chamar-te joana d'arc no outono de uma
cidade surpreendida.

foi então que vi a morte aproximar-se vinda do horizonte e cobrir o
pôr do sol das tuas tardes

vi morrerem a água a luz a leve sombra da palidez da tua fronte
vi as aves marítimas seguirem para longe em voo raso

e pela última vez
definitivamente só

eu amei o outono nesta cidade.

José Agostinho Baptista, in deste lado onde